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Da casa aos armazéns urbanos: como guardar coisas se tornou um negócio nos tempos modernos

Por Débora Ramos

Da coluna Educação e Carreira
Artigo de responsabilidade do autor

Para sociólogos, geração atual monopoliza tantas coisas que se tornou necessário um lugar fora de casa para guardá-las

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ColunaCasaEDecoração

A venerada consultoria de ativos britânica Schroders, que possui uma lista de inquilinos que lhe rende US$ 3 bilhões por ano (R$ 10 bilhões), resolveu recentemente apostar boa parte de suas fichas em um setor novo na Inglaterra: o de armazéns para guardar toda sorte de coisas. Quando a empresa comprou cinco espaços por US$ 55 milhões (R$ 189 milhões) em diferentes áreas de Londres, o mercado financeiro se movimentou, mas não se surpreendeu.

Segundo o jornal The Guardian, o investimento da Schroders foi feito de olho na redução do número de aposentados e no aumento de locatários de imóveis na capital britânica: se antes uma cama box baú era suficiente, o fenômeno atual fez com que os moradores ganhassem a necessidade de ter onde guardar suas coisas.

"Não se trata de centros comerciais, de hotéis, de moda, à primeira vista não é um dos produtos mais sexys", disse James Gibson, um dos fundadores de uma das maiores empresas do setor, em entrevista ao jornal britânico.

Marcas como Safestore, Big Yellow e Access cobriram o território britânico de depósitos coloridos nos quais as pessoas guardam todos os "trecos" que não precisam ter à mão, mas que também não querem se desfazer. No Brasil, o setor ganhou apoio do banco estadunidense Goldman Sachs, que investiu R$ 600 milhões em uma empresa de self-storage em São Paulo. Na Europa, esse mercado já movimenta US$ 800 milhões (R$ 3,03 bilhões) anuais.

A indústria estadunidense de self-storage ganhou mais de US$ 32 bilhões (R$ 110 bilhões) em receitas no ano passado, quase três vezes os lucros brutos de Hollywood no mesmo ano, por exemplo. Em muitos casos, self-storages são mais lucrativos que os investimentos convencionais em imóveis. O custo médio de um espaço como esse nos EUA era 97 centavos de dólar por metro quadrado por mês em 2016 - o mesmo que a média de um apartamento de um quarto na cidade de Phoenix, no Arizona.

Essa indústria é resultado de uma grande mudança sociológica: Danny Dorling, professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra, afirma que a geração atual possui seis vezes mais coisas do que a passada -- onde tudo cabia debaixo da cama ou, no máximo, na garagem. Roupas, móveis, aparatos tecnológicos e outros objetos que foram sendo colocados nas pequenas casas europeias fizeram com que os espaços acabassem, mas não o ímpeto de acumular.

Dorling ainda diz que há um instinto que a geração atual desenvolveu em monopolizar coisas ao invés de compartilhá-las.

De fato, analisando a vida média nos EUA, o professor tem razão: entre junho de 1967 e junho de 2017, gastos com bens duráveis no país -- como sofás, bicicletas e celulares -- cresceram quase 20%. Em 2006, pesquisadores da Universidade da Califórnia publicaram um artigo afirmando que o excesso de coisas tinha se tornado um "fardo esmagador para a maioria das famílias de classe média, especialmente no Ocidente, onde os porões das casas não são grandes o suficiente para absorver tanta coisa".

Outro fator que explica o crescimento do ramo nos EUA é o uso temporário para guardar coisas de pessoas que morreram, de casais que se divorciaram e de quem se mudou de cidade ou de país. Esses são fatores-chave também para o crescimento de self-storages no Reino Unido, onde estão localizados 47% dos lotes de toda a Europa. O resto do continente provavelmente alcançará a situação britânica: com a urbanização crescente, pequenos espaços e o aumento dos preços dos imóveis forçam proprietários a procurar lugares para guardar suas coisas.

No Brasil, existem pouco mais de uma centena de empresas dentro do setor, mas só algumas delas têm atuação em grandes capitais, como São Paulo. A maioria delas guardam estoques de empresas que preferem tê-los armazenados nesses espaços como forma de facilitar as entregas ou o abastecimento do comércio, já que os galpões ficam fora da região central.

No entanto, o fenômeno estadunidense se repete em alguns casos no Brasil. "Com os apartamentos cada vez menores, o self- storage acaba sendo uma extensão da casa, da vida pessoal", finalizou Silvio Laban, professor do Insper, ao G1.

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