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As histórias secretas por trás de cinco personas de David Bowie

Por Vinícius Mendes

Da coluna Cultura
Artigo de responsabilidade do autor

De Ziggy Stardust ao "profeta cego", o cantor e compositor britânico encarou todas as questões ao longo da carreira por meio de personagens -- até quando o próprio Bowie estava no centro delas

Istock Photos

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O britânico David Bowie é conhecido como um dos músicos mais influentes da história desde os anos 1960. Canções como Heroes, Let's Dance, Space Oddity e seu dueto com Freddie Mercury e o Queen em Under Pressure se tornaram hits internacionais, criando uma aura própria ao cantor, compositor, saxofonista e guitarrista morto em 2015.

No entanto, Bowie é famoso também pelo apelido -- camaleão --, que ganhou pelo fato de, durante sua carreira de meia década, ter criado e interpretado vários personagens extraordinários. Por isso, elaboramos uma pequena introdução a algumas das personas mais famosas dele.

 

Ziggy Stardust
Um semideus bissexual em botas vermelhas: um personagem que deu a Bowie o tamanho que ele precisava. Mas há mais sobre essa persona do que apenas o jeito em que ele se apresentava. Ela foi a fórmula perfeita para fama, unindo um grande compositor com um visual icônico e uma performance teatral que até então não conhecia no cenário pop. O disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de 1972, é considerado um dos maiores de todas as épocas e suas canções possuem tons críticos em questões como política, drogas e orientação sexual.

A criação do personagem Ziggy Stardust foi o resultado de vários eventos e questões da própria vida de Bowie. Nas letras do disco, é possível notar que ele tentou lidar com as ameaças do tempo e do envelhecimento, o que se relaciona com a estória de Ziggy -- que diz em Five Years, canção que abre o disco, que "há apenas cinco anos para viver até o fim do mundo".

A decisão de Bowie em fazer Ziggy como um bissexual demonstrava sua aceitação a todos os tipos de orientação sexual, o que era uma grande controvérsia naquele tempo -- principalmente no Reino Unido.

Mas por que ele criou o personagem como um alienígena? Porque Bowie também estava interessado em ficções científicas e em viagens ao espaço, como se nota em canções como Space Oddity ("Though I'm past one hundred thousand miles/ I'm feeling very still/ And I think my spaceship knows which way to go/ Tell my wife I love her very much she knows").

Mas assume-se hoje também que Bowie tinha outra fonte de inspiração: o pioneiro do rock Vince Taylor, que teve um colapso mental depois de usar drogas em demasia e que passou a acreditar que era um deus alien.

Aladdin Sane
Depois de fazer o mundo se apaixonar por Ziggy Stardust, Bowie o matou durante o último show da turnê do disco, em julho de 1973, em Londres. Em seguida, introduziu um novo personagem no cenário musical: Aladdin Sane, geralmente apontado como uma referência e uma inspiração em seu meio-irmão, Terry Jones, que fora diagnosticado com esquizofrenia -- por isso o nome é uma brincadeira, chamando-o de "a lad insane" ("um rapaz insano").

Os números no título da canção de mesmo nome, Aladdin Sane (1913-1938-197?), sugerem que Bowie vislumbrava a possibilidade de uma terceira guerra mundial em vias de acontecer. Bowie nomeou seu sexto álbum de estúdio com o mesmo nome da nova persona depois de sua turnê nos Estados Unidos, ainda em 1972, que se intitulava "Ziggy goes to America" (Ziggy vai a América"). Aladdin Sane é, de fato, muito mais sinistro do que o álbum de Ziggy.

Ele se baseou no lado escuro da cultura estadunidense em canções como Cracked Actor ("Crack, baby, crack/ Show me you're real/ Smack, baby, smack, is that all that you feel/ Suck, baby, suck/ Give me your head") e Panic in Detroit. Ali, Bowie estava finalmente aparecendo para o mercado dos EUA, aparecendo em shows apenas com uma lanterna nas mãos, mas aprendendo como a fama no outro lado do oceano era mais difícil do que parecia.

The Thin White Duke
A encarnação do seu alter ego aconteceu durante os anos mais sombrios da vida de David Bowie, quando ele estava lutando contra o vício nas drogas e enfrentando um quadro forte de estresse. Todas essas questões são visíveis no álbum lançado naqueles anos: Station to Station, de 1976. Esse alter ego apresenta um homem problemático que até canta romances, mas é completamente vazio de sentimentos.

O duque tinha cabelo platinado e estava geralmente vestido com camiseta branca, calça preta e um colete. Ele foi a persona mais controversa de Bowie e chegou a ser chamado de um "aristocrata psicopata" e um "zumbi imortal" pela imprensa.

Em uma entrevista para a revista Rolling Stone, em fevereiro de 1976 (intitulada "Ground Control do Davy Jones"), o cantor disse que também tinha ficado apaixonado por Ziggy durante o período da turnê, mas que poderia ser qualquer personagem: até mesmo Adolf Hitler. "Não teria sido difícil. Os shows solos foram tão assustadores que mesmo os jornais estavam dizendo: 'Isso não é rock, isso é um maldito Hitler! Algo precisa ser feito!'. E eles estavam certos. Era incrível. Hoje, eu imagino... eu poderia ter sido um maldito Hitler muito bem. Eu seria um excelente ditador. Muito excêntrico e muito louco".

Bowie afirmou tempos depois que suas declarações fascistas, quase nazistas, eram parte do personagem que estava encenando e, em outro momento, admitiu que as drogas o fizeram dizer tais coisas. Naquela época, a entrevista ainda o faria passar por um dos episódios mais polêmicos da carreira: o da estação Victoria.

Como odiava viajar de avião, Bowie retornou ao Reino Unido em 1976 para alguns concertos como Thin White Duke de trem, saindo da Suíça. Chegou à Victoria Station, em Londres, no fim de um domingo, quando muitos passageiros aguardavam ali por suas viagens de volta para casa. O cantor desembarcou do vagão direto para um carro conversível que lhe deixaria no hotel. Na saída da estação, diante de uma pequena multidão, o carro brecou para que ele pudesse acenar aos fãs. Foi quando o fotógrafo Chalkie Davies clicou o astro com a mão direita levantada e o olhar no horizonte.

Davies relata em seu blog mantido até hoje que, na hora da edição, o escritório em que trabalhava resolveu modificar a mão de Bowie que, por causa do flash, estava apagada. Com a modificação, ela foi para os jornais, onde parecia, de fato, que ele estava fazendo o sinal nazista para as pessoas. Por semanas, a fotografia foi discutida em todos os cantos do país -- muito por causa de suas declarações à Rolling Stone.

The Goblin King
Ao longo de sua carreira, David Bowie também fez papéis em diferentes trabalhos de cinema. O mais famoso deles foi Jareth, o "Rei dos Duendes" no filme de fantasia épica Labyrinth (Labirinto - A Magia do Tempo, 1986). É impossível esquecer seu look anos 1980 que ele admitiu naquela época, com um cabelo volumoso e roupas de couro.

The Blind Prophet
Depois de encarnar diversos personagens, em seu último álbum, Blackstar (2016), Bowie mostrou seu eu real: David Robert Jones. Nos clipes, seus olhos estavam cobertos por bandagens, onde ele aparecia como um profeta cego predizendo sua própria morte. A estrela preta na capa do disco possui uma mensagem escondida, transformando-se em uma galáxia de estrelas quando a luz a ilumina. Uma linda despedida aos seus fãs, já que ele morreu dias depois do lançamento mundial do disco.

Alguns acreditam que o título, "blackstar", se refere ao câncer que ele tinha descoberto tempos antes, mas que manteve em segredo. Em inglês, o termo também pode designar alguns tipos de lesões cancerígenas no corpo. Trechos de letras como "Look up here/ I'm in heaven", de Lazarus, e o vídeo da mesma canção mostrando Bowie em uma cama de hospital agora parecem ter significados mais profundos. Mesmo quando mostrando o real David, ele aparece revestido de várias camadas.

1 COMENTÁRIO:

Triste quando ídolos se vão, principalmente quando o motivo é uma doença incurável. Bowie vai ficar pra sempre nas minhas lembranças de adolescente rebelde que fui. Também cambaleando pelas décadas, me identifiquei muito com Bowie
enviado por: Eli nino em 30/03/2019 às 09:10:54
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