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Mais de dois séculos depois, Robespierre ressurge entre os gilets jaunes

Por Vinícius Mendes

Da coluna Cultura
Artigo de responsabilidade do autor

Em 2019, a França lembrará os 230 anos da Revolução Francesa em meio a uma nova agitação política e social que lembra as vésperas da queda de Luís XVI

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No começo do mês que vem, a França vai lembrar -- como alguns grupos fazem todos os anos -- o aniversário de Maximilien de Robespierre, o advogado que ficou conhecido na história por ter liderado o Comitê de Salvação Pública, órgão de um dos parlamentos criados durante a Revolução Francesa na época conhecida como Terror. Nascido há 261 anos, em maio de 1758 em Arras, na província de Pas-de-Calais (179 km de Paris), seu nome voltou a circular no país com força por causa dos gilets jaunes. Seria Robespierre um colete amarelo?

O movimento social e político que ocupa a agenda francesa desde novembro do ano passado é provavelmente a maior crise que a França experimenta desde maio de 1968. Analistas apontam que as condições que permitiram o surgimento dos gilets jaunes são anteriores à presidência de Emmanuel Macron: ao não cumprirem suas principais promessas políticas, seus dois predecessores, Nicolas Sarkozy e François Hollande, fizeram com que a população ficasse ainda mais distante da classe política, e no primeiro ano do mandato de Macron essa insatisfação chegou ao ápice.

Além da crise política, os coletes amarelos foram às ruas contra a situação econômica francesa. Desde 2012, o crescimento médio do PIB é de 1%, taxa que, em um país endividado e com gastos sociais altos, é preocupante. Nos últimos anos, cresceram os números do desemprego e das cobranças de impostos, sem contrapartidas do Estado aos cidadãos -- no final do ano passado, em uma tentativa de diminuir a força do movimento, Macron aumentou o salário mínimo de certas classes de trabalhadores em €100 (R$ 440).

O momento conturbado da Quinta República da França lembra o clima social e político das vésperas da Revolução, e não à toa que alguns políticos franceses não hesitam em se identificar com Robespierre, caso do candidato derrotado à presidência Jean-Luc Mélenchon, do partido de esquerda La France Insoumise.

Amante do Iluminismo e defensor fervoroso da Revolução, o então deputado jacobino da Assembléia Nacional Constituinte de Paris nunca deixou de assumir posições radicais que dizia ser em favor dos direitos do povo, e ficou famoso durante seu auge daquele período pelo apelido de "O Incorruptível". "Eu sou do povo e quero ser apenas isso. Desprezo qualquer um que afirme ser algo mais do que isso", escreveu em um dos seus discursos no parlamento -- textos que agora estão sendo recuperados pelos gilets jaunes em seus protestos e colocados em reivindicações.

A figura de Robespierre, no entanto, é polêmica: para alguns, ele foi fiel republicano que aceitou matar as elites em prol da liberdade e da igualdade para todos, desde os mais pobres até os judeus e negros. Para os outros, o advogado era um tirano sanguinário que executou todos os seus opositores políticos com a crueldade da guilhotina, um ideólogo das experiências totalitárias que o mundo conheceria no século XX.

"Ele é lido de forma ambígua porque incorporou o espírito da Revolução em todas as suas contradições e ambivalências: foi tanto o fundador da França moderna como também líder de um regime de terror e violência incapaz de estabelecer uma democracia estável", explica Thiago Rocha, professor de História da Universidade Federal do ABC. "Se fosse hoje, ele provavelmente estaria nas ruas com os gilets jaunes", completa.

O historiador e filósofo Marcel Gauchet, da École des Hautes Études de Sciences Sociales, em Paris, escreveu um ensaio no ano passado dizendo que, se Robespierre não estabeleceu uma doutrina filosófica específica, como seu mentor intelectual, Jean-Jacques Rousseau, ele foi o porta-voz mais fiel à Declaração dos Direitos Humanos, adotada em agosto de 1789, antes mesmo da queda da monarquia.

"Direitos para todos os homens, independentemente de suas condições sociais, religiosas ou raciais era o lema do deputado. Foi assim que ele se opôs veementemente à censura que os votos reservados aos mais abastados promoviam. Para Robespierre, isso era como substituir a casta privilegiada dos nobres por uma nova forma de aristocracia, a mais insuportável de todas: a dos ricos", disse Gauchet.

Para Rocha, Robespierre seria um coletes amarelos porque o movimento afirma e parece ser, antes de tudo, a voz de uma França de baixo, dos mais pobres -- que na época da Revolução eram chamados de sans-culottes (sem calças, uma referência às peças curtas de roupa que os nobres usavam). Em um dos seus discursos, o deputado jacobino dizia que "a comida necessária ao homem é tão sagrada como a própria vida" para defender o preço justo do trigo, um ingrediente fundamental na cozinha das classes baixas francesas do final do século XVIII. O paralelo com as reivindicações atuais sobre o poder de compra e, mais especificamente, sobre o preço da gasolina, é inevitável.

"Robespierre teria justificado os atos violentos dos gilets jaunes em nome da justiça popular, insistindo que ela é um preço a pagar para defender os direitos mais fundamentais", explica o professor de História.

De fato, um dos argumentos mais conhecidos do revolucionário diante das críticas do período do Terror foi quando, perante os outros deputados, ele questionou: "Vocês querem uma revolução sem revolução?". Especialistas franceses afirmam que o grau de violência só não foi maior durante os protestos dos coletes amarelos, com registros de mortes, porque as polícias do país usam equipamentos "defensivos", como bombas de efeito moral.

Gauchet, no entanto, não diminui seu papel autoritário: como o membro mais influente do Comitê de Salvação Pública, encarregado de implementar as políticas excepcionais para salvar a França, ele teve uma grande responsabilidade nos excessos do regime, como a prisão dos líderes populares -- que muitas vezes eram seus amigos, como o advogado Georges Jacques Danton. Sob esse ponto de vista, Robespierre também teria aplaudido a prisão de Éric Drouet, um dos porta-vozes mais emblemáticos dos coletes amarelos, assim como a repressão policial.

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