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A história da professora argentina que viajou 5 mil km para ensinar geografia aos seus alunos

Por Raphael Granucci

Da coluna Viagens
Artigo de responsabilidade do autor

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Utilizando o cenário de Buenos Aires, Mariana López foi de Córdoba a Santa Cruz, em janeiro deste ano, tirando fotos para mostrar às crianças da escola onde leciona

Quando Mariana López tinha 14 anos, ela viu passar pela porta da igreja de Villa Dolores, em Córdoba, a segunda maior cidade argentina, um grupo de homens e mulheres com jaquetas de couro montados em grandes motocicletas. "Aquilo começou a fazer um ruído dentro do meu corpo", contou ao jornal Clarín.

Ela não sabia naquela época, mas esse ruído se tornaria mais forte com o passar do tempo, até se transformar no desejo de recorrer toda a Argentina em duas rodas. Hoje, aos 39 anos, acabou de voltar a Córdoba depois de 32 dias pela Ruta Nacional 40, uma coluna vertebral do país que liga o Norte à Patagônia em seus 5.121 quilômetros. No caminho, paisagens diversas e belas, assim como hostis: montanhas coloridas, solos quebradiços, valles e sinuosas estradas de cascalho cujos ventos fazem perder o equilíbrio.

Marina, que é docente do sistema municipal de Córdoba - trabalha como professora suplente em distintas escolas primárias públicas -, se encontrou no ano passado com uma situação que a motivou a empreender a viagem iniciada como sonho aos 14 anos.

"Durante um exercício com alunos da quinta série me dei conta que os livros de geografia têm poucas imagens do nosso território, e quando pedi a eles que buscassem mais exemplos no Google eles me trouxeram fotos de uns lugares quaisquer que encontraram", disse ao Clarín.

"Eu ensinei a eles a selecionar imagens de sites oficiais, mas muitas vezes parecia que, mesmo dessa forma, a única coisa que existia na Argentina é Humahuaca, ao Norte, e Bariloche, ao Sul. E não é assim, né?", completa.

Mariana uniu os fios: se apresentava um pretexto altruísta para se lançar na estrada. "Decidi que poderia me encarregar de conseguir as fotos compilando-as em um diário de viagem que poderia servir aos alunos", contou.

Um ano antes, ela já tinha começado a frequentar encontros de motoqueiros em Córdoba com sua motocicleta de 125 cilindradas que fora pintada de rosa e adornada com uma série de componentes, assim como personalizou seu capacete. A sua presença no grupo correu rápido no circuito da cidade e logo ela foi convidada para participar de outra trupe, a "Piratas de la posta", onde se estabeleceu.

"Fazemos caravanas, comemos churrasco, escutamos música, no verão vamos ao rio e no inverno acendemos fogueiras. É um mundo em que há muito respeito pelas mulheres. A gente pensa o contrário, mas as reuniões são muito familiares: vão casais com seus filhos pequenos. Encontrei neles meus melhores amigos", revelou.

Antes de encarar a Ruta 40 - uma das principais rotas de viagem de motocicleta do mundo - ela havia viajado sozinha uma única vez. Saiu de Córdoba no ano passado com a expectativa de chegar às cataratas de Foz do Iguaçu, na tríplice fronteira com o Brasil e o Paraguai, mas conseguiu chegar apenas à metade do caminho: em Yapeyú, na província de Corrientes, porque o carro que levava atado à moto com roupas, comida e acessórios quebrou. Faltavam 600 km para chegar ao destino. "Hoje eu dou risada, mas foi uma prova tremenda".

Seis meses depois ela foi até La Quiaca, na província de Jujuy, para chegar até Cabo Vírgenes, em Santa Cruz, onde a estrada começa - e então, iniciar o trajeto por toda a Ruta 40. Para fazer a viagem, contrariou a mãe, o pai e os amigos do "Piratas de la posta". "O pessoal do grupo me disse que eu estava louca, que não podia ir sozinha. Meu pai, que é caminhoneiro, me deu uma ordem para não ir", comenta. Na escola, seus superiores achavam que ela estava brincando.

Mariana partiu no dia 27 de dezembro de Córdoba para chegar a Cabo Vírgenes no final de janeiro. A viagem foi feita em uma moto Avenger Street 220 cilindradas que comprou no começo de 2017. Durante o trajeto, dormiu em cabanas, em casas de famílias e em hotéis na beira da estrada. "As pessoas me abriram a porta de suas casas, outras me deram o jardim. Quando não deu tempo de encontrar algum lugar, armei a barraca na beira da estrada e dormi", disse.

Durante o caminho, levou dispositivos para fotografar a viagem: um celular, uma câmera digital, uma profissional e uma GoPro. Se movimentando a uma média de 60 quilômetros por hora, com alguns pedaços da estrada a 40 quilômetros por hora, ela se preparou para fazer aproximadamente 250 quilômetros por dia. Mesmo assim, passou momentos difíceis: entre as cidades de Gobernador Gregores e Tres Lagos, na província de Santa Cruz, por exemplo, demorou um dia inteiro para cruzar apenas 80 quilômetros de cascalho.

"Tinha um precipício do lado da estrada e o vento me jogava toda hora: de vez em quando vinha da direita, outra vinha da esquerda. A moto inclinava e eu fazia um contrapeso. Se eu caísse ali, estava morta. Em um momento desci da moto e comecei a chorar. Daí respirei fundo, pensei que me faltava uma semana de viagem, tomei coragem e segui", recordou ao Clarín.

Quando chegou a Tres Lagos, pensou em voltar a Córdoba e interromper o plano, mas decidiu continuar depois que, em uma conversa telefônica com um amigo do grupo, foi alertada de que aquela era a parte mais difícil da estrada - e ela já havia ultrapassado. Cinco dias depois ela chegou ao ponto zero da Ruta 40. "Me sentia tão forte quando desci da moto que pensei em continuar até o Ushuaia, mas ao mesmo tempo fiquei em paz. O plano tinha se tornado realidade".

Naquela mesma noite dormiu na pequena cidade de Rio Gallegos, em Santa Cruz, para voltar à estrada no dia seguinte. Pegou a Ruta Nacional 3, que liga a região à província de Buenos Aires e, então, tomaria rumo a Córdoba. No entanto, chegando em Puerto Madryn, na província de Chubut, a embreagem da moto não aguentou. Mariana precisou subir em um caminhão até Buenos Aires, onde consertou a moto e voltou à cidade de origem.

No total, foram 8,5 mil quilômetros rodados em 53 dias. "Quando estou sozinha na estrada me sinto independente, penso no pouco que é necessário para ser feliz. Como posso viajar um mês e todo o material que precisava estava em cima de uma moto?", diz.

Segundo o jornal argentino, Mariana tem em mente outros três planos de viagem para os próximos anos: ir até o Valle de la Luna, no Parque Nacional de Talampaya, ao Sul, tentar fazer a rota até as Cataratas, na tríplice fronteira, e ir até a Terra do Fogo. Já em relação à viagem de janeiro, ela está terminando a edição de um livro baseado em seus diários onde pretende não apenas contar da paisagem, mas ajudar outros viajantes que desejam fazer o mesmo.

Ruta 40
A Ruta 40 é a maior estrada da Argentina. De fato, é uma das maiores rodovias do mundo e, com certeza, a maior da América do Sul, ligando Cabo Vírgenes, em Santa Cruz, até Quiaca, em Jujuy, na fronteira com a Bolívia, numa extensão de 5,2 mil quilômetros.

Ela permite uma série de visões incríveis por causa de sua proximidade com os Andes e sua passagem por mais de 20 parques nacionais. Conectando o país de Norte a Sul, a Ruta 40 tem como maiores atrações o Estreito de Magalhães, a geleira Perito Moreno, a trilha das vinícolas, o Parque Nacional Talampaya e a região dos lagos gelados. No total, a rota atravessa 11 províncias argentinas: Jujuy, Salta, Tucumán, Catamarca, La Rioja, San Juan, Mendoza, Neuquén, Río Negro, Chubut e Santa Cruz

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