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Os caminhos do Apanhador no Campo de Centeio pelas ruas de Nova York

Por Raphael Granucci

Da coluna Viagens
Artigo de responsabilidade do autor

Istock Photos

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"Hey, ouça. Você sabe aqueles patos no lago próximo ao Sul do Central Park? Aquele lago pequeno? Por um acaso você sabe para onde eles vão, os patos, quando ele fica todo congelado?". Essa é uma questão típica de Holden Caulfield, o narrador de Apanhador no Campo de Centeio (Editora do Autor, 1965), livro de 1951 escritor pelo estadunidense Jerome David Salinger.

O protagonista é um anti-herói de 16 anos que perambula por Nova York gastando seu tempo até poder voltar para a casa dos seus pais -- ele fugiu da escola preparatória na Pensilvânia quatro dias antes da data marcada para retornar. As andanças de Holden se tornaram parte da mítica da cidade, transformando alguns locais ordinários em relíquias.

A responsável pela conservação histórica do Central Park, Sara Cedar Miller, contou ao jornal New York Times que ouve essa pergunta o tempo todo. "Todo mundo leu o livro", completa.

"Eu não tenho ideia do que Salinger estava pensando", continuou Miller, “eu trabalho no parque há 26 anos e sempre vejo os patos no lago". No inverno, segundo ela, é comum fotografá-los sentados sobre a água congelada.

Ainda assim, eles são talvez a imagem mais memorável de Nova York dada por um pequeno livro repleto de menções aos patos.

Antes de entrar em reclusão no estado de New Hampshire, a cerca de 430 km de Nova York, Salinger -- que morreu em 2010, aos 91 anos -- teve uma profunda relação com a metrópole estadunidense: ele morou no Harlem, na Upper West Side e na Park Avenue em sua adolescência e, depois, quando adulto, viveu na East 57th Street. Em um artigo publicado no mesmo jornal, o jornalista Clyde Haberman escreveu que Nova York é, por si mesma, uma personagem da famosa obra.

Assim, O Apanhador no Campo de Centeio pode servir como um guia de uma época da cidade -- um tempo que foi perdido para sempre, mas que ainda existe de alguma forma: escura, enigmática, que não para de crescer. "Eu não diria que o livro se passa em Nova York, mas que ele atravessa o que uma criança como Holden, que cresceu na cidade, poderia se interessar em fazer nela", disse Peter Beidler, autor do livro A Reader's Companion to J.D Salinger 'The Catcher in the Rye' ("Um guia de leitura a 'O Apanhador no Campo de Centeio', de J. D. Salinger", sem tradução para o português) e professor licenciado da Universidade de Lehigh, na Pensilvânia.

"Um homem de 40 anos andando por Nova York veria coisas diferentes. Mas ele descreve tudo como um adolescente de 16 anos a veria", continua.

Salinger começou a falar de Nova York ainda na Pennsylvania Station -- 58 páginas depois de prometer não contar "onde eu nasci e como foi minha infância nojenta", é ali que ele surge entrando em uma cabine telefônica. Um menino de 16 anos tomando o trem em direção à cidade nos dias de hoje desembarcaria em um lugar menos inspirador: Holden desceu uma extraordinária estação projetada pelo escritório McKim, Mead & White, cuja destruição nos anos 1960 alimentou o movimento de preservação histórica da cidade.

"Ele entrou em Nova York como um deus", brincou o historiador da arquitetura Vincent Scully ao portal Mic. Scully lamenta pela obra que substituiu a antiga estação, chamando-a de "suja" e "comum". "Hoje, as pessoas entram como um rato", vocifera.

Além do seu guia, Beidler criou um mapa que traça as perambulações de Holden por Manhattan, mesmo a lugares que não existem mais, como o Edmont Hotel, onde o personagem tem um encontro estranho com uma prostituta. Ele afirma que o Edmont ficava na West 50s, entre a Quinta Avenida e a hoje nomeada Avenida das Américas (Avenue of the Americas). Na época de Holden, era apenas Sexta Avenida. A pesquisa para encontrá-lo, no entanto, não foi fácil.

"Como é no Edmont que Holden observa 'pervertidos' pela janela e que depois se relaciona com um cafetão e uma prostituta, é provável que Salinger tenha usado um nome fictício para o hotel que ficava ali", contou Beidler ao NY Times. Mas o escritor deixou uma pista: na obra está escrito que Holden cruzou "41 lindos quarteirões", saindo do Ernie's Night Club, em Greenwich Village.

Ernie's, aliás, também foi um lugar inventado pelo autor. Bar que era frequentado por seu irmão, D.B, que mora em Hollywood durante o período do livro, é ali que o personagem assiste a uma apresentação "horrível" de piano e encontra uma antiga affair de D.B em um encontro com outro rapaz.

"No mapa, consegui imaginar mais ou menos onde Holden estava", continua Beidler. Alguns outros críticos acreditam que, na verdade, o New Yorker Hotel, entre a 34th e a Eighth Avenue, foi o cenário real utilizado por Salinger.

Em outro trecho, Holden retorna à casa dos seus pais na esperança de encontrar sua irmã mais nova, Phoebe Caulfield, entre a East 71st e a Quinta Avenida. O apartamento é adjacente ao Central Park e está entre o 12º e 13º andar. Hoje, esse endereço cobiçado em todo leilão de imóveis é conhecido como um destino lendário de Nova York -- é ali que Holden inicia sua jornada em direção à realidade. Alguns fãs mais exaltados chegaram a investigar apartamentos nas redondezas e encontraram três que se assemelham perfeitamente.

O personagem menciona ainda a McBurney School, uma escola privada que o próprio Salinger tinha frequentado e que fora fechada em 1980. Em outro momento, Holden espera perto do relógio de Biltmore por um encontro com uma amiga. Hoje, Biltmore se tornou um edifício de escritórios -- os bancos em que ele sentou, olhando as meninas na rua, não existem mais. "Garotas com suas calças apertadas, garotas com suas calçadas largas, garotas com lindas calças, garotas com calças nojentas, garotas que pareciam ser legais...", escreveu. "É uma ótima vista."

O Grand Central Terminal permaneceu, apesar dos armários antes trancados por moedas que Holden usa para guardar suas malas terem sido removidos por razões de segurança. O Radio City Music Hall -- outra das paradas do personagem -- também continua operando ao seu modo, assim como os grandes museus mencionados por ele, que são atrações turísticas de Nova York até hoje.

Há ainda o Hotel Seton, onde Holden pede uma bebida após se hospedar. "Nós recebemos crianças e adolescentes que entram e perguntam se aqui é o Seton Hotel", contou Leslee Heskiaoff, proprietária do estabelecimento de mesmo nome na East 40th Street. "Não é. Nós não temos bar aqui", completa.

Hoje, muito tempo depois que O Apanhador no Campo de Centeio foi publicado e se tornou uma leitura obrigatória nas escolas estadunidenses, há uma pessoa que poderia ter contado ao próprio Salinger sobre os patos no lago citado por Salinger no Central Park. Ela é Adrian Benepe, oficial de carreira do Departamento de Parques da cidade e que hoje é comissário local. Ele contou ao New York Times que passou parte da infância perto do parque.

"Eu teria contado a ele que os patos não vão a lugar algum no inverno. Eles principalmente ficam aqui e vão para o reservatório, onde são recontados", finaliza.

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