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Opinião
Sexta-Feira, 11 de Maio de 2018, 19h:15
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Por que sou professor e geocientista

Por Prof. Dr. José Alexandre de J. Perinotto*

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Algumas inspirações de infância conduziram a opções na  juventude e maturidade.

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Prof. Dr. José Alexandre de J. Perinotto - Artigo

Prof. Dr. José Alexandre de J. Perinotto

 

Lendo O Poço do Visconde, de Monteiro Lobato - em certa altura da narrativa, o nobre "sabugo" me presenteou com isto... "A um quilômetro dali havia um morro com grande desbarrancado — a "barreira", como se dizia no sítio. O Visconde levou-os para lá. Diante da barreira, parou e sorriu. Os meninos entreolharam-se. Não compreendiam que o Visconde encontrasse matéria para sorriso num barranco feio como todos os mais. — Que gosto é esse, Visconde? — perguntou Emília. — Ah, o sorriso que tenho nos lábios é um sorriso geológico — o sorriso de quem sabe, olha, vê e compreende. Este barranco é para mim um livro aberto, uma página da história da Terra na qual leio mil coisas interessantíssimas". (Monteiro Lobato - O Poço do Visconde, 1965 - Editora Brasiliense).

E assim aconteceu. Tentando desvendar os segredos do "barrancos Terra afora", graduei-me em Geologia e me tornei um geocientista. É tão apaixonante e contagiante que resolvi deixar o setor de Geologia da Petrobras e me tornar professor da Unesp em Rio Claro, procurando transmitir exatamente este sentimento, que o Visconde tão bem exclamou, a todos os jovens que passaram por minhas aulas.

Além disso, o geólogo um tradutor! Afinal, ele é capaz de ler a história, a estrutura e a evolução da Terra escritas nas rochas, nos minerais e nos fósseis pela natureza ao longo dos milhares, milhões e bilhões de anos e traduzir tudo isto para toda a humanidade. E esta é altamente dependente dos recursos naturais que o planeta dispõe para a nossa própria evolução como sociedade.

Mostrar toda esta beleza frágil e continuamente mutável é algo fascinante. Ao mesmo tempo, nos torna responsáveis para alertarmos a todos os habitantes da Terra que não temos outro planeta para nos transferir quando este estiver esgotado pelo uso insustentável que temos feito do planeta ao longo da história da humanidade. Esta é uma nobre missão.

Para concluir, trabalhar com prazer e paixão pela lida diária, como tenho feito com a Geologia e a docência, me faz recordar de outro trecho lido em O Profeta (Khalil Gibran) que, se minhas memórias não me traírem, diz algo mais ou menos assim "... Quando trabalhais sois uma flauta através da qual o sussurro das horas se transforma em harmoniosa melodia".

 

 

*Prof. Dr. José Alexandre de J. Perinotto
Diretor do Instituto de Geociências e Ciências Exatas - IGCE - da Unesp em Rio Claro, SP.

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