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Opinião
Quinta-Feira, 13 de Junho de 2019, 07h:00
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Tristeza de um pai

Por Marcelo Harger*

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Ele me olhou com tristeza nos olhos, me deu um forte abraço e disse que nunca havia sentido uma dor tão grande em sua vida. Tenho certeza de que era verdade. Chorava copiosamente, e pude sentir um pouco da dor que o afligia. Foi a dor mais doída que já senti em minha vida. Era a de um pai que acabara de perder o filho.

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Marcelo Harger

 

Há coisas que não deveriam acontecer. Pessoas queridas jamais deveriam morrer. Esse, contudo, é o ciclo da vida. A morte é parte da vida da mesma forma que o entardecer é parte do dia.

 

Há situações, contudo, como a retratada, em que o ciclo é interrompido de forma a parecer uma grande injustiça divina. Temos em nosso interior a convicção de que os mais velhos devem ir primeiro do que os mais novos, e sempre nos espantamos quando esta ordem é quebrada. É algo inevitável. A dor de perder um pai somente pode ser superada pela dor de perder um filho. Felizmente até hoje não perdi nenhum. Apenas posso imaginar de acordo com as experiências alheias.


Reflito com frequência sobre o tema. Não quero morrer. Apenas faço reflexões porque o dia do meu fim certamente está cada dia mais próximo. Antigamente faleciam os avós dos amigos. Depois de um tempo passaram a falecer os pais dos amigos. Atualmente há amigos que se vão.


Acidentalmente caiu-me em mãos um trecho de um livro de Martha Medeiros sobre o tema. Segundo ela, antes de nascermos havia uma ausência de nós mesmos. Depois de nossa morte essa ausência se torna infinita. A vida é um breve intervalo de tempo entre duas ausências. Somente se pode enfrentar a magnitude dessa ausência com o amor. É o amor por aquele ser que se foi que nos serve de sustento. É a alegria de ter podido amar aquela pessoa, no breve espaço de sua existência, que pode servir de consolo. Melhor ter o ente querido em nossas vidas, ainda que por um curto momento, do que a ausência representada por ele nunca ter existido.


São considerações filosóficas que ajudam a me preparar para aquilo que é inevitável. Tento preparar-me para algo em relação ao qual não existe possibilidade alguma de preparação. Faço isso com a sincera impressão de que se puder optar, preferiria ir embora antes dos meus entes queridos. O mais difícil, certamente, seria saber que eles se foram e quem ficou fui eu.

 

 

*Marcelo Harger
Advogado em Joinville, graduado em Direito pela Universidade Federal do Paraná, pós-graduado em processo civil pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Mestre e Doutor em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas, ex conselheiro do Conselho Estadual de Contribuintes de Santa Catarina, ex Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito Administrativo e Gestão Pública do Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina - CESUSC, foi professor em diversos cursos de graduação, pós-graduação e extensão universitária, membro do Instituto de Direito Administrativo de Santa Catarina – IDASC, autor de diversos artigos científicos publicados nas principais revistas jurídicas do país, autor do livro “Os consórcios públicos na lei n° 11.107/05”, do livro “Princípios Constitucionais do Processo Administrativo”, do livro “Improbidade Administrativa: Comentários à lei n⁰ 8429/92”, coordenador do livro “Curso de Direito Administrativo”, coautor dos livros: “ICMS/SC - Regulamento anotado”, “Direito Tributário Constitucional”,  “Princípios Constitucionais e Direitos Fundamentais”, “O direito ambiental e os desafios da contemporaneidade”, “Processo Administrativo Temas Polêmicos da Lei 9.784/99” e “Filosofia do Direito contemporâneo”.

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