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Segunda-Feira, 06 de Julho de 2020, 07h:00
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Oração aos insensatos

Por Daniel Medeiros*

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Começo dizendo que, na verdade, nem sei orar. E não foi por falta de empenho de meus pais que se desdobravam para que eu soubesse que há uma metafísica, nem do Padre com suas prédicas e nem do Rabi com seu balanço e sua voz monótona. Nunca consegui aprender, nem mesmo aquelas  rezas decor que saem sem querer de nossas bocas em momentos solenes, como velórios ou ameaças de cataclismas. Eu só movia os lábios enquanto pensava que após a liturgia haveria algo para comer.

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Daniel Medeiros

 

No entanto, nesses tempos em que vivemos, quando penso nos insensatos, não sei como mas penso em forma de oração, querendo dirigir palavras para eles, rogando para Alguém que eles escutem. Sim, é fato, pode não existir esse Alguém, ou existir e não ouvir bem, ou ouvir tanto que tudo vira um ruído em seus ouvidos, ou então estar tão longe que nossos apelos não O alcançam ou estar simplesmente com um fone de ouvidos curtindo uma playlist celestial. Não importa. Quero orar.

Oro para os insensatos porque seu egoísmo deve ser um peso enorme sobre seus ombros. Carregar um enorme Eu em torno do qual o mundo vive e respira, as coisas acontecem ou deixam de acontecer, tudo para afeta-lo ou prejudica-lo ou impedi-lo de seu sucesso que ninguém reconhece porque são todos….egoístas, menos ele, que sofre porque há um mundo que conspira e agora isso, as pessoas não percebem que seu negócio ou até seu emprego está em risco, e a casa está um lixo porque a empregada que já corre tantos riscos, agora diz que tem de cuidar da família, imagina, e a família dele, como que fica, as férias arruinadas, as crianças em casa sem ter o que fazer, são jovens, saudáveis, e não há um único lugar para se ficar em paz, é um inferno, isso tem de acabar porque não aguento mais.

Oro para os insensatos porque sua inconsequência deve obriga-los a viver com os olhos sempre bem fechados, ignorando tudo que não sejam pessoas com olhos arregalados e ouvidos atentos ao seu sofrimento e às suas perdas e seus adiamentos porque as pessoas são covardes e burras por não ouvir suas explicações definitivas.

Oro para os insensatos porque sua raiva deve fazer mal pra pele, dar enxaqueca, azia, perturbações no sono; oro para os insensatos porque eles estão sempre querendo ir para outro lugar no qual enfim eles serão compreendidos e viverão entre os seus, mas esse lugar não existe, pelo menos não existe fora deles.

Oro pelos insensatos porque eles não se sentem culpados por nada e sempre acham  a quem responsabilizar não só pelo que acontece com eles mas também com o que acontece por causa deles, afinal “classificamos de barbárie o que é alheio aos nossos costumes”.

Oro pelos insensatos porque eles me verão e virarão o rosto ou apontarão o dedo dizendo todas as coisas que penso deles.

Oro pelos insensatos, principalmente, porque tenho medo de olhar no espelho e reconhecer um insensato mirando-me sem peias e  sem culpa.

 

 

*Daniel Medeiros

Doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.

 

 

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