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Menino ou Menina? Conheça os theybies, as crianças criadas sem gênero

Por Pérola Cattini

Da coluna Bem-Estar
Artigo de responsabilidade do autor

Os pais as tratam, desde o nascimento, sem distinção de gênero, até que elas decidam por conta própria com o que elas se identificam

Istock Photos

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O mercado infantil da moda adota uma tendência que ganha força nos últimos anos: as roupas sem gênero. O objetivo é tornar socialmente aceito o fato de uma menina usar azul e menino usar rosa, sem que eles sejam rotulados por conta dessa decisão. É um movimento de respeito à diversidade e que vai de encontro com os modos tradicionais de educação infantil. O conceito foi alargado para outros contextos, como os brinquedos. Por que um menino não pode brincar com uma boneca sem isso ser motivo de discussão entre familiares e amigos, por exemplo? Agora, outro movimento pontual está presente, principalmente nos EUA e no Canadá: as crianças criadas sem distinção de gênero desde o nascimento.

Elas são chamadas de theybies. Em inglês, o pronome they pode significar tanto eles quanto ou elas - portanto, é neutro em relação ao gênero. Os pais de uma criança theyby a tratam, desde o nascimento, sem distinção de gênero. O sexo biológico da criança, na maioria das vezes, é ocultado da própria sociedade, incluindo familiares próximos. O objetivo é não influenciar a decisão futura dos filhos.

Dessa forma, o gênero só pode ser descoberto pela própria criança. Nem ela mesma sabe se é menina ou menino, mesmo tendo consciência dos órgãos genitais que possui. Essa é uma forma que os progenitores encontraram de não impor uma realidade aos pequenos. Na literatura médica e sociológica, há uma distinção entre sexo biológico e identidade de gênero.

Enquanto o primeiro é detectado logo no nascimento, o segundo se desenvolve com o decorrer dos anos. Por volta dos quatro anos, a criança já é capaz de saber se ela se identifica com o sexo com o qual ela nasceu ou se a percepção de gênero é diferente. Uma criança pode ter todas as características biológicas de um homem, por exemplo, e se identificar como sendo do gênero feminino. É a chamada identidade de gênero, amplamente aceita pela comunidade científica.

Os theybies, por sua vez, possuem uma liberdade maior para se identificar com um determinado gênero, segundo os defensores da prática. Eles não são rotulados socialmente e não incorporam o gênero binário, concepção que só atribui o conceito de homem ou mulher. Além de não ser informado sobre o seu sexo biológico inicialmente, essas crianças vestem roupas variadas e também brincam de forma aleatória com os brinquedos que desejarem.

Na hora de escolher as roupas,  os pais não se importam, por exemplo, em comprar peças que indiquem o gênero, optando por aquelas neutras como jeans, camisetas e tênis com modelos unissex, como All Star e New Balance infantil.

Os eventos são isolados, mas costumam ter bastante repercussão. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu no Canadá. Kori Doty teve um bebê na casa de amigos e o batizou de Searyl. Como ele não passou pelo hospital, a criança não passou pela inspeção obrigatória para identificar o sexo. Kori, que se identifica como uma pessoa transgênero não binária (que não se considera nem homem nem mulher), conseguiu que o cartão de saúde do bebê não informasse o gênero. Agora o objetivo é que o estado da Columbia Britânica aprove por lei a emissão de certidões de nascimento sem a identificação de gênero.

Os pais dos theybies enxergam a concepção de gênero como sendo fluida e não binária. Mas o que isso quer dizer? Basicamente, que o indivíduo não precisa se decidir entre ser homem ou mulher. Como no caso demonstrado acima, a pessoa pode simplesmente não se sentir parte de um determinado grupo social. Embora já venha de nascença com um sexo biológico, o gênero não precisa corresponder necessariamente aos aspectos físicos.

Controvérsia
Embora muitos especialistas considerem a prática nobre, existe o questionamento sobre a efetividade desse movimento e a dificuldade de manter essa blindagem social em um mundo no qual as pessoas não compreendem muito bem os conceitos de identidade de gênero. "Uma vez que seu filho encontra o mundo exterior, que pode ser creche, pré-escola - é praticamente impossível manter um estado livre de gênero", afirma Lise Eliot, professora de neurociência na Chicago Medical School e autora de "Pink Brain, Blue Brain" em entrevista para a NBC News.

"E dependendo de como convencional sua comunidade é, você poderia estar configurando seu filho para o assédio moral ou exclusão", completa a especialista.

“Nossa sociedade é organizada por gêneros, a divisão está presente nos esportes, nos banheiros públicos, na linguagem. Então os pais não conseguem evitar a definição do gênero da criança por muito tempo. Assim que entrar na escola, a criança vai ser questionada sobre o assunto”, concorda a psicóloga Christia Spears Brown, diretora do Center for Equality and Social Justice da Universidade de Kentucky, em entrevista sobre o tema para o jornal Gazeta do Povo.

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