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Os livros que inspiraram Alexander Supertramp a fugir para a selva

Por Vinícius Mendes

Da coluna Cultura
Artigo de responsabilidade do autor

A história de um menino de família rica que abandonou tudo para viver sozinho no meio da natureza -- e pagou com a vida por isso

Divulgação

ColunaCultura

Em agosto de 1992, um grupo de caçadores encontrou um jovem morto e em decomposição em uma zona agreste do Alasca, nos Estados Unidos. Dois anos antes, quando Christopher Johnson McCandless havia terminado sua graduação na Universidade de Emory, em Atlanta, ele cumpriu seu último ato na "civilização": depois da formatura, sumiu do mapa, mudando seu nome para "Alexander Supertramp", doando todas suas economias para uma organização comunitária e abandonando seus pertences e seu carro às margens de uma rodovia para viver vagando pelo continente norte-americano.

Quando a notícia da aparição do cadáver chegou aos meios da imprensa, o jornalista estadunidense Jon Krakauer se interessou pela história de um menino de família rica que abandonou tudo para inventar uma nova vida a si mesmo. Depois de escrever um artigo para a revista Outside, que gerou a maior quantidade de cartas enviadas à redação da sua história, ele decidiu investigar o que havia por trás da firme convicção do jovem leitor de León Tolstói -- o romancista russo que tinha recusado uma vida de riqueza e privilégios para viver no submundo.

Na época, a história de Supertramp tinha gerado uma verdadeira comoção nacional que tomou conta desde os veículos da imprensa até às faculdades de psicologia, que ofereciam explicações próprias para a decisão dele em se afastar da sociedade.

Em Na natureza selvagem (Companhia das Letras, 1998), o livro que inspirou o filme Into the Wild, de Sean Penn (2007) e que comemora 20 anos de sua primeira edição em 2019, Jon Krakauer reproduz a viagem de Supertramp nas 16 semanas em que sobreviveu no Alasca. O relato é tão completo que inclui mapas e descrições detalhadas dos lugares pelos quais ele passou até chegar ao outro lado do continente, onde há a menor taxa de população de toda a região.

Um dos pontos interessantes da história de Supertramp é que, durante sua época em Emory, ele foi um profundo leitor de autores como Henry David Thoreau, Gogol e Jack London, entre outros. Krakauer encontrou até alguns trechos de livros que foram sublinhados por ele antes da viagem à natureza.

De Felicidade Familiar, publicado por Tolstói em 1859, ele riscou a seguinte parte: "Queria movimento, não uma existência sossegada. Queria emoção e perigo, assim como a oportunidade de me sacrificar por amor. Me sentia cheio de tanta energia que não podia canalizá-la através da vida tranquila que levávamos".

De Thoreau, um dos seus grandes mestres, ele não apenas buscou inspiração para abandonar a "civilização" como maneiras de viver em meio à natureza. Em Walden, escrito em 1854, Supertramp encontrou filosofia e prática: "Nenhum homem guiou seu gênio até o ponto de se equivocar. Ainda que o resultado fosse a exaustão física, ou inclusive no caso de que ninguém pudesse afirmar que as consequências teriam sido lamentáveis, para tais homens existia uma vida conforme princípios mais elevados. Se você recebe o dia e a noite com alegria, se a vida exala a fragrância das flores e das plantas aromáticas, se é mais flexível, estrelada e imortal, o mérito é seu. A natureza inteira é a sua recompensa. As grandes vitórias e os princípios são muito difíceis de se apreciar. Duvidamos da existência deles com facilidade. Logo os esquecemos. Mas são a mais elevada das realidades. A autêntica colheita da vida cotidiana é tão intangível e indescritível como os matizes da manhã e da noite. É como pegar um pouco de poeira das estrelas ou o fragmento de um arco-íris".

Do mesmo livro, há outra citação que aparece também no filme dirigido por Sean Penn e estrelado por Emile Hirsch (Hal Holbrook foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante na edição de 2008). "Mais que o amor, o dinheiro ou a fama, desejo a verdade. Me sentei em uma mesa onde havia manjares esquisitos e vinho em abundância, rodeados de convidados suntuosos, mas carente de verdade e sinceridade. Me distanciei dessa mesa inóspita ainda sentindo fome. A hospitalidade era tão fria como o gelo".

Em Ktaadn, de 1828, Thoreau fala com deslumbramento da vida na natureza "selvagem" que, para ele, era a única forma de agir perante uma sociedade com leis com as quais não se concorda. O próprio autor conta, em Desobediência Civil, que, por ser contra a escravidão de africanos nos Estados Unidos do seu tempo, deixou de pagar impostos, isto é, "desobedeceu a lei", mas por convicção. Depois de passar uma noite na prisão, ele chegou à conclusão que fugir para a floresta era a única forma de manter-se ligado à essência humana. Supertramp, em Ktaadn, ficou empolgado quando leu um trecho em que Thoreau demonstra excitação com a vida na selva.

"Ali a natureza era selvagem e terrível, mas bonita. Eu olhava com temor reverencial o solo que pisava, para ver o que tinham feito as potências naquele lugar, a forma, o modo e seu material de trabalho. Era uma Terra que só temos ouvido falar, surgida do caos e da noite ancestral. Não era o jardim do homem, mas a esfera terrestre intacta. Não era um bosque, um campo de cultivo, uma pradaria ou um ermo. Era a superfície natural do planeta Terra, tal como foi criada para sempre, para ser a morada do homem. [...] Penso que nossa vida na natureza -- se encontrar cotidianamente diante da matéria, entrar em contato com ela ---, nas pedras, nas árvores, o embate do vento em nossos ouvidos, a terra sólida, o mundo real, o sentido comum. Contato! Contato! Quem somos? Onde estamos?".

De Caninos Brancos, de Jack London, Supertramp também se interessava pelas descrições da natureza feitas pelo escritor estadunidense em 1906. "Uma floresta sombria de pinheiros assomava ameaçadoramente às margens do rio congelado. Não fazia muito tempo que o vento arrancara as árvores de seu manto branco e elas pareciam se unir no crepúsculo agonizante, negro como um mau presságio. Um vasto silêncio reinou sobre a Terra. A própria Terra era uma pura desolação, sem vida nem movimento, tão fria e nua que seu espírito não era nem mesmo o espírito de tristeza. Uma espécie de risada, mais terrível do que qualquer tristeza, foi insinuada: [...] foi a magistral sabedoria da eternidade que riu da futilidade e dos esforços inúteis da vida. Era a natureza selvagem, o coração gelado das terras selvagens do Norte".

Enfim, de Carta de um Homem, de John Menlove Edwards, os riscos no livro velho encontrado no seu quarto depois da sua partida indicam o que o havia atraído com tanto vigor para sua vida pós-universidade: "cresci com o corpo desbordante de vitalidade e de entusiasmo, mas com um caráter nervoso e ansioso. Minha mente queria algo mais, algo tangível. Buscava intensamente a realidade, sempre como se a realidade não estivesse ali. No entanto, de repente se dá conta que não há o que fazer".

No caso de Alexander Supertramp, a saída foi passar dois anos vagando pelos Estados Unidos, sozinho, até morrer, em agosto de 1992, numa área isolada do Alasca.

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