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Slavoj Žižek, o filósofo dos jovens contemporâneos

Por Vinícius Mendes

Da coluna Cultura
Artigo de responsabilidade do autor

Como o YouTube e o politicamente incorreto fizeram a fama do esloveno mais conhecido no mundo hoje

Andy Miah

ColunaCultura

Slavoj Žižek tem muitos tiques quando fala em público: pega no nariz, coça o bigode, penteia o cabelo para trás, move as mãos compulsivamente, morde a língua, descola a camisa do corpo e a balança. Ainda não consegue pronunciar bem a letra S. Por outro lado, é um dos filósofos (senão o) mais famosos do século XXI, venerado por jovens, criticado por elites acadêmicas e conhecido como o "rockstar" da filosofia.

Nascido na Eslovênia, no Leste Europeu, ele estudou Filosofia na Universidade de Liubliana, capital do país, onde seguiu a carreira acadêmica até a pós-graduação -- o doutorado. Nesse meio tempo, aprendeu inglês e russo, ao contrário da maioria dos seus colegas. "Tinha duas potências no mundo. Não era bom estar seguro? Quem ganhasse [a Guerra Fria], eu saberia seu idioma", disse em um documentário sobre sua vida publicado em 2005.

A produção acadêmica de Žižek, porém, não remete apenas aos anos em que ele se tornou uma personalidade mundial: nos anos 1970, ele já escrevia e publicava frequentemente na revista Mladina, de oposição ao regime iugoslavo. Durante dois anos, ela foi uma grandes vozes contrárias ao governo em Liubliana, mas as mudanças políticas criaram novas divisões ideológicas ao seu redor e acabaram por culminar em sua demissão. Ele tinha 27 anos e ainda morava na casa dos pais.

O regime comunista tentou mantê-lo à margem para que suas opiniões não tivessem impacto, empregando-lhe em lugares que hoje o filósofo se envergonha, mas que entende ter sido uma estratégia do governo ao qual se opunha. Então, resolveu fazer um segundo doutorado na França, agora em Psicologia (na Universidade Paris VIII Vincennes-Saint-Denis). Seu enfoque era a teoria da psicanálise desenvolvida pelo francês Jacques Lacan, que defendia que a psique tem três elementos: o real, o simbólico e o imaginário. Foi a partir desses conceitos que Žižek construiu toda sua filosofia.

Seu primeiro livro de alcance internacional foi The Sublime Object of Ideology (Eles Não Sabem o que Fazem: o Sublime Objeto da Ideologia, Zahar, 1992), publicado em 1989, em que ele se afastou da teoria marxista -- que normalmente se debruça sobre o tema da ideologia --, explicando como as representações que o homem faz da realidade são ligadas às condições materiais de sua existência. Žižek mudou a perspectiva e passou a analisar a ideologia a partir de uma concepção materialista, mas baseada na psicanálise lacaniana e no idealismo hegeliano (a ideia é a base de todo o conhecimento e é necessária para compreender autenticamente o real).

Em 1990, Žižek tentou ser presidente do seu país pelo Partido Liberal Democrático nas primeiras eleições depois que a Eslovênia tinha se tornado um país separado da Iugoslávia. Não ganhou, mas ficou perto. Ele disse posteriormente que a vitória quase aconteceu porque, em um dos debates de TV, um dos seus concorrentes afirmou estar seguro que ele tinha um coeficiente intelectual maior do que a mesa com 11 postulantes ao cargo.

Naquele ano, porém, ainda estava longe de ser um rockstar da filosofia, porque, mesmo com um livro de sucesso publicado, ele queria mesmo era fazer cinema. Escreveu vários artigos e obras sobre filmes, como The Pervert's Guide to Cinema (O guia perverso do cinema), em 2006 -- o último deles circulou pelo mundo por criticar e elogiar Roma, de Alfonso Cuarón, na mesma proporção. A tradução para o português foi publicada no jornal Folha de S. Paulo.

A fama entre os millenials existe por vários motivos: o primeiro deles é que a sua filosofia é baseada em exemplos em que Žižek consegue usar coisas comuns para desvendar ideologias e problemas sociais e filosóficos. O segundo é que a sua carreira deu um passo distinto quando começou a publicar vídeos de análises de filmes (de Alfred Hitchcock a David Lynch) em um canal no YouTube. Quando escreveu dissertações sobre a pornografia em termos lacanianos, seu sucesso explodiu. "Na pornografia encontramos em estado puro a estranha tensão, e ao mesmo tempo interconexão, entre realidade e fantasia", diz um trecho do texto.

Por causa dos vídeos e dos textos acessíveis, passou a ser convidado por universidades do mundo inteiro para dar palestras e conferências: de Columbia e Princeton, nos Estados Unidos, às grandes instituições de ensino e pesquisa da Europa e da América Latina.

Controverso, Žižek é um filósofo que usa a erudição e o domínio da teoria como mescla para sua postura politicamente incorreta. Nos primeiros dias de 2016, como orador principal do foro de esquerda Left Forum, disse que, se fosse estadunidense, votaria em Donald Trump. A grande maioria dos presentes se escandalizou, mas ele depois se explicou: a vitória do magnata, além de ser repugnante, teria a capacidade de causar um grande despertar no mundo -- e hoje parece que tinha razão.

Sua frase mais famosa, no entanto, foi dita em uma conferência em Buenos Aires, na Argentina, no começo dos anos 2000. Ele falava sobre as mudanças de perspectiva do mundo do século XX para o atual, tanto do ponto de vista dos domínios políticos, como de preocupações. "Trinta anos atrás, debatíamos como deveria ser o futuro: comunista, fascista, capitalista, etc. Hoje, ninguém fala sobre esses temas. Todos aceitamos silenciosamente que o capitalismo global chegou para ficar", começou.

"Por outro lado, estamos fascinados com as catástrofes cósmicas com a possibilidade da vida inteira na Terra desapareça por algum vírus, pelo choque de algum asteróide, etc. O paradoxo é que é muito mais fácil imaginar o fim da vida na Terra do que uma muito mais modesta transformação radical no capitalismo".

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