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Sábado, 23 de Abril de 2022, 13h:23
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Revisionismo histórico: Tiradentes, um mártir em questão?

Por Iran Coelho das Neves*

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Tentativas de desconstrução da imagem do alferes como herói da Independência inserem-se numa nova onda de revisionismo, quase sempre de inspiração ideológica.

 

O feriado de 21 de abril celebra a memória de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, enforcado em 1792 e, posteriormente, erigido como Mártir da Independência do Brasil, que só seria proclamada trinta anos depois.

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Iran Coelho das Neves - Artigo

Iran Coelho das Neves

 

Embora há algum tempo certos historiadores apontem que o “processo de mitificação” de Tiradentes só se deu a partir da Proclamação da República – pela necessidade de heróis que aproximassem o movimento com as camadas populares –, nota-se que tentativas de desconstrução da imagem do alferes como herói da Independência inserem-se numa nova onda de revisionismo, quase sempre de inspiração ideológica.

Obviamente, não interessava à monarquia, estabelecida em 1822, celebrar a memória de um inconfidente republicano como herói nacional. Daí, o longo olvido a que Tiradentes e a própria Conjuração foram relegados, até a proclamação da República, em 1889.

Porém, sustentar que a instauração da figura de Tiradentes como herói da Independência foi uma simples jogada de ‘marketing político’, urdida pelos próceres militares e civis para popularizar o regime republicano que acabavam de instalar, extrapola os limites da imaginação criativa de correntes acadêmicas novidadeiras.

Não se trata, naturalmente, de questionar o direito de historiadores, de esquadrinhar os mais diferentes aspectos e personagens de nossa história, expondo novos olhares sobre eles. O problema é quando teses – que devem ter suporte em dados e referências confiáveis – são substituídas por simples especulações que, mesmo manejadas com habilidade, não passam disso.

 

Aliás, bem a propósito desse revisionismo recorrente em nossa historiografia, o economista Pedro Malan (ministro da Fazenda de 1995 a 2002) dizia, ainda na década de 1990: “No Brasil, até o passado é incerto.” Com respeitável formação acadêmica, Malan certamente não estava pondo em questão a natural inquietação dos historiadores diante de verdades ‘definitivas’. Antes, ironizava as frequentes tentativas de revisar fatos de nossa história, sob a conveniência desta ou daquela corrente ideológica.

Pretender reduzir a dimensão histórica e a importância emblemática de Tiradentes como Mártir da Independência, sob o trôpego argumento de que foi resgatado porque o culto a sua memória era útil para popularizar o regime republicano recém-instalado, afronta a própria essência de nossa brasilidade, corrói o cabedal de valores com os quais se constrói o sentido de pátria.

É certo que uma nação não precisa inventar um novo ‘herói’ a cada crise, real ou fictícia. Mais certo, porém, é que a nação que não celebra seus autênticos heróis estará em descompasso com a sua história. E, portanto, fadada ao desencontro com seu futuro.

Cultuar a memória de Tiradentes como Mártir da Independência do Brasil é, antes de tudo, celebrar os valores fundantes da Pátria.

 

 

*Iran Coelho das Neves

Presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul.

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